Quer ser mais criativo? Então, permita-se ser feliz

Quando informei à minha chefe que estava saindo da agência da qual eu havia sido sócia por muitos anos ela me disse: “Tudo bem. Eu tinha exatamente a sua idade quando decidi deixar um emprego público seguro para abrir essa empresa”. Ela explicou que acreditava que as pessoas deveriam ir atrás do que realmente é importante para elas e concluiu o pensamento com uma frase que eu nunca esqueci: “É tempo de ser feliz”.

Essa conversa aconteceu há sete anos, mas eu lembro dela tão perfeitamente porque o que a minha ex-sócia estava dizendo era que o tempo de ser feliz não era só aquele, eram todos. Sempre é tempo de ser feliz.

Lembrei dessa história esta semana porque estava lendo O Caminho do Artista e a autora, Julia Cameron, fala sobre como bloqueamos nossa própria criatividade porque insistimos na ideia de que não podemos ou não devemos ser felizes. Para ela, criatividade é felicidade. E felicidade é brincar, experimentar, curtir o momento, ser bobo, fazer perguntas. Todas essas ações são muito naturais para as crianças, mas nós adultos achamos que precisamos deixar tudo isso para trás. Isso está matando nossa criatividade.

Um vídeo muito bom da School of Life fala sobre como mentimos para nós mesmos para não fazermos aquilo que realmente queremos. Para fugir do medo de sermos nós mesmos(as), usamos as desculpas que o mundo já preparou para nós: “estou muito ocupado(a)”, “isso é bobagem”, “não tenho tempo para isso”.

Limitações reais existem, é claro. Outras, entretanto, são fabricadas. Elas vêm da nossa ideia limitada do que é ser um ser humano respeitável e cabem certinho no nosso medo de sair um pouquinho que seja da fórmula pré-concebida.

Eu amo a ideia de “stop the glorification of busy”. Já trabalhei com pessoas que, no fundo, no fundo, adoravam sofrer. Nesse mundo louco, inventamos que, se você não estiver sofrendo, você não está trabalhando o suficiente, não é competente o suficiente, não é importante o suficiente. Você certamente conhece alguém que vive “reclamando” da falta de tempo. Essas reclamações são, na verdade, uma medalha no peito carregada exibida com orgulho.

O problema é que nós estamos acreditando nessa conversa furada e isso acaba com a nossa criatividade. O vídeo da School of Life diz que, na nossa jornada para nos tornarmos também competentes e importantes (ou para sermos percebidos assim) começamos a sofrer de propósito.

“Nos tornamos verdadeiros mestres em elaborar desculpas que fazem com que nossa infelicidade pareça necessária e sadia”

Julia Cameron acha que, além de ser uma desculpa aceita e incentivada pela sociedade, a ideia do adulto sofredor encontra eco em nós mesmos. Será que você acha que não merece ser feliz?

“A verdade é que fomos feitos para ter abundância e aproveitar a vida”

O livro de Cameron é um clássico com cópias vendidas em vários países. A obra fala dos diferentes aspectos sociais e psicológicos que bloqueiam nossa criatividade. Entre eles: repressões sofridas na infância, medo de passar vergonha, repressão religiosa, etc. O fato de as ideias do livro serem tão populares talvez seja um indicativo de que estamos, coletivamente, matando nossa própria felicidade.

Se você clicou neste texto procurando maneiras de ser mais criativo, aqui vai a lição: seja feliz.

A fórmula da felicidade, eu vou ficar devendo. Acho que ela não existe e que temos que construí-la de diferentes formas. Já a fórmula da infelicidade, aparentemente, existe sim. Existe, é aceita e incentivada entre os adultos. Vamos sair dessa?

Permita-se ser feliz. Você merece.

Pergunte, experimente, curta.

É tempo de ser feliz.

Originally published at http://www.suzanavalenca.com on February 25, 2021.

Jornalista e consultora de comunicação. www.suzanavalenca.com

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