Que diferença podemos tolerar?

Quando falo sobre conversar com quem pensa diferente, tenho a impressão que algumas pessoas entendem isso como um pedido para que sejamos amigas de indivíduos absurdos como o presidente do Brasil. Eu não quero ser amiga do mandatário do nosso país e duvido muito que você queira também. Acontece que, no meu entender, muitas pessoas diferentes de mim não chegam nem perto de pensar como o presidente. Entre nós e o diálogo impossível, há muito terreno. Como descobrir o limite? Até onde eu consigo dialogar? Onde eu traço a linha final?

Em um episódio recente do podcast do Headspace, o ex-monge Andy Puddicombe deu uma boa ideia para resolver essa questão. Ele falava sobre o conceito budista de “condição humana” e sobre tudo o que nos faz igual a todos os outros habitantes da Terra. Andy disse para nos perguntarmos: Que diferença podemos tolerar?

De vez em quando, topamos com o paradoxo da tolerância. Para ser uma pessoa tolerante, preciso tolerar racismo, homofobia, injustiças? Eu acho que não. Mas também acho que estamos traçando nosso limite muito lá atrás.

Esses dias, vi no Twitter pessoas zombando de quem usa “sapatênis”. O problema não era só uma discordância estética. O calçado estava sendo usado como associação a todas as coisas inaceitáveis que listei acima. Era uma piada, claro, mas precisamos mesmo fechar a porta já no sapatênis? Acho que estamos perdendo o foco.

Acho que já sabemos muito claramente o que não toleramos. Então, vamos pensar em que tipo de diferença podemos aceitar na conversa?

(Na minha opinião: Racismo = intolerável. Calçado feio = tolerável)

O cara do sapatênis certamente não tem bom gosto no quesito moda, mas será que ele conta boas histórias? Será que conseguimos abrir as portas só um pouquinho para ouvir as ideias de quem é mais velho ou mais novo que nós, de quem ouve um tipo de música totalmente diferente daquele que nós gostamos, de quem se veste de um jeito esquisito, de quem tem experiências de vida completamente diferentes das nossas?

Acho que podemos ser radicalmente intransigentes contra as injustiças do mundo e ainda assim sabermos aprender com quem não é exatamente igual a nós.

Originally published at http://www.suzanavalenca.com on January 14, 2021.

Jornalista e consultora de comunicação. www.suzanavalenca.com